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São Paulo, SP
Solteira, 27 anos. Licenciada em Teatro/Arte-Educação, na Universidade de Sorocaba. Atriz de Teatro há 11 anos, Arte-Educadora há 5 anos e pesquisadora com iniciação científica apoiada pelo CNPq com o titulo "Reflexões acerca do papel do espaço cênico na construção das relações espetaculares pós dramáticas"

quarta-feira, 24 de março de 2010

“Desterro”: Casarão da CPFL vira palco e quintal de espetáculo teatral.

"Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas.”
(texto de Manoel de Barros utilizado na dramaturgia do espetáculo “Desterro”)

Ao abrir as portas do espaço de ensaio e de construção cênica do espetáculo “Desterro”, o Coletivo Cê nos deixa ver um belíssimo Casarão, talvez não muito conhecido por todos os espectadores, situado na parte central de Sorocaba.
O Casarão antigo da CPFL praticamente não foi alterado pelo grupo, poucos são os acessórios cênicos que ressignificam o espaço. Contudo, ali, no encontro com outros espectadores, no perfume do café que traz lembranças das tardes com broa de fubá, nas brincadeiras de criança, nas cantigas populares que deixam saudade e na lua gigante que aponta no céu transformando o cenário cotidiano em cenário espetacular, podemos perceber juntos um espaço que não é mais da cidade e nem do grupo, é nosso, ganhamos assim nosso quintal.
A partir daí, a história do menino/homem interpretado por Hércules Soares se confunde também com nossas memórias (a memória, aliás, se personifica no espetáculo, interpretada de maneira doce e instigante pela atriz Eliane Ribeiro). Somos conduzidos, sempre pelo menino, por vários cômodos do Casarão e em cada um deles conseguimos perceber um fragmento da história do protagonista.
Num jogo de intimidade e estranhamento, o grupo brinca com imagens, olhares, iluminação e sabores. Através deste jogo, identificamo-nos ora como a mãe, fincada na terra, igual árvore, vendo o filho partir, e ora como passarinho que não consegue mais ficar dentro da gaiola, precisa voar.
Com leveza e astúcia, Janaina Silva parece flutuar através de suas palavras, compondo a dramaturgia do espetáculo. O texto é nitidamente fruto de grande pesquisa e sensibilidade, o que parece ser mérito não apenas da dramaturga como de todo elenco (a julgar pelo livro de registros do grupo).
Entre tantos acertos do Coletivo Cê, é necessário comentar a atuação de Fernanda Brito, presenteando os espectadores com uma performance corporal e vocal precisa e encantadora, a jovem atriz atrai todas as atenções ao teu canto, deixando em evidência também o trabalho habilidoso e talentoso de Júlio Mello (diretor do espetáculo) e de Melany Kern (preparadora corporal).
Por tudo isso, o nosso quintal, aquele que foi construído pelos atuantes do grupo, mas que é, durante a representação, compartilhado com os espectadores, se torna maior do que a cidade que o rodeia, se torna maior que os quintais que tentam reproduzir tão inutilmente esta cidade. É maior porque tem intimidade, e como adultos, que um dia tiveram que abandonar seu lugar de origem levando consigo as lembranças eternas, sabemos que é “pela intimidade que se mede o tamanho das coisas”.
“Desterro” é um espetáculo que deve ser prestigiado por aqueles que acham que a arte deve ter alguma função maior do que apenas divertir, por aqueles que têm lembranças e passado, e por aqueles que desejam assistir a algo realizado com muito bom gosto.

Serviço:"Desterro", de 20/02 a 11/04
Sábados às 20h e Domingos às 19h
Ingressos: Pague Quanto Puder
Local: Casarão da CPFL (Rua Dr. Ubaldino do Amaral, 202, Centro, Sorocaba-SP)
Info: (15) 88149882 e (15) 91121644

sexta-feira, 19 de março de 2010

Excerto de um discurso!

Ao término da faculdade de Teatro/Arte-educação, fui votada para ser oradora da turma e falar, em nome do curso, na colação de grau, algumas palavras sobre nossa vida acadêmica.
À pedidos da turma, colocarei aqui um trecho do discurso:
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"... E agora, me formando, percebo que no curso de Teatro/ Arte-Educação, eu aprendi muito sobre teatro e sobre arte-educação, mérito de nossos tão eficientes e dedicados mestres e amigos, e assim, sinto-me preparada para enfrentar o que vem pela minha frente. Mas mais do que isso, na faculdade, com estes professores que chamo de amigos, aprendi outras coisas também:

- Aprendi que não importa o quão adulto você é ou o quanto você estude, uma hora você ira olhar para o lado e dizer pra alguém “não consigo entender, me ajuda?”
- Aprendi que qualquer briga se resolve com um abraço e pedido de desculpas sincero.
- Aprendi que chorar escondida, só é bom se alguém perceber e for onde você está te dar um abraço.
- Aprendi que pessoas te surpreendem com talentos ocultos quando você as deixa tentar e que cada pessoa tem seu tempo pra aprender, mas não devemos subestimar o potencial alheio.
- Aprendi que as pessoas são diferentes, e até opostas, mas quando as duas falam baixo, conseguem se entender.
- Aprendi que uma conversa na cantina, às vezes, responde dúvidas que nenhum livro responderia.
- Aprendi que “bicho-grilo”, “patricinha”, “viado”, “velha” ou “vagabundo” são rótulos que as pessoas colocam para evitar a descoberta do surpreendente. O artista é surpreendente! Estranho não, estranho é não viver a sua verdade, estranho é se preocupar mais com a felicidade alheia do que com a própria.
- Aprendi que realmente tem gente que ganha à vida virando cambalhota ou andando de perna-de-pau e que isso não é tão fácil quanto parece, afinal “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”
- Aprendi que um bom amigo sempre oferece sua própria cama quando você precisa, que reparte seu lanche ou até te paga um almoço pra ter um pouquinho mais da sua companhia.
- E por fim, aprendi que o “tamanho das pessoas deve ser medido pela intimidade que temos com estas pessoas” e por isso que, neste instante, pra mim, cada um de vocês se torna um gigante.

Hoje, finalmente, nós, os alunos da 4ª Turma de Teatro da UNISO, podemos dizer que somos “arte-educadores”, prontos pra enfrentar a batalha que se tornou a educação no Brasil, sempre com a devida vontade de aprender mais a cada dia, que somos atores e atrizes que sabem levar o nome do teatro ao pedestal que lhe é digno, que somos Artistas com “A maiúsculo” (e até a Rita concordaria, tenho certeza)... Mas, além disso, e muito maior do que isso, somos seres humanos melhores do que antes, porque a maior dificuldade do ser humano é conseguir olhar o mundo através do olhar alheio, e nós conseguimos.
E pra encerrar com algo que tantas vezes discutimos em sala, e parafraseando Martin Luther King, "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons." e nós, a gente do Teatro, fazemos parte dos bons que não tem medo de dizer o que pensa e o que sente. Que Dionísio, o Deus do Teatro, nos conserve assim. Evoé Baco."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Acontece!



Acontece que eu estava aqui no meu mundo bonito de arte e poesia e beleza e esperança e toda esta coisa que a gente às vezes nem vê, nem toca, mas sabe que está lá e tudo isso faz você acordar de manhã com uma fome monstruosa de sugar tudo e de mudar o mundo.


Acontece que eu via as crianças brincando, sorrindo e sonhando e pensava que então o mundo era bonito, pois eles são a esperança, são a solução da produção de conhecimento futuro e a fé de que tudo será mais sensível e verdadeiro daqui pra frente, afinal, eles são assim.


Acontece que eu tenho bom coração e acredito no bom sentimento, que tudo de mal tem razão pra ser, que aprendo sempre a cada tropeço e que no final tudo tem sentido.


Acontece que ontem, em meio ao meu jardim todo colorido, percebo que as coisas não são assim tão bonitas, que existem pessoas insensíveis, ironicas e cruelmente sádicas. Que nem só de arte o mundo é repleto, de repente o capitalismo me bateu a porta, a ganância me bateu na cara e a falta de moralidade gritou aos meus ouvidos.


Acontece que ainda penso que meu mundo, aqui deste lado, de gente que é feliz, é mais bonito. Mas lamento. Lamento com lágrimas nos olhos e uma vontade, que logo passa, de desistir, por ver que às vezes a arte está tão alem deste mundo que tem o dinheiro tampando o olho de tanta gente.


Acontece que a gente, a gente da arte, escolheu o caminho difícil, de quem enxerga um pouco além e por isso sofre todas as dores do mundo. A gente de teatro escolheu falar a verdade o tempo todo, porque mentira é bom só de brincadeirinha. A gente de música escolheu fazer das palavras canções que cantam em ritmo lento pra fazer acalmar e ao mesmo tempo cantar alto pra ver se alguém escuta. A gente da dança escolheu deixar a alma se mostrar e o corpo ficar escondido, a gente quis transcender. A gente decidiu então ser um pouco sincero num mundo que prefere usar a hipocrisia pra vencer, e, no entanto, conseguimos vencer sempre um pouco mais.


Acontece que a arte inquieta. Os artistas se manifestam. E o mundo um dia se arruma!



“Não sei. Não sei. Mas desejo ardentemente que assim seja, e me lanço inteira, porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido...” Rubem Alves


sábado, 12 de setembro de 2009

Porque a cultura nem sempre está longe.


“Nem tudo é tão igual assim, para quem tem olhos para buscar o diferente” Manuel Ferreira Lima Filho

Foram duas horas de passeio pela parte velha da cidade. Sem guia turístico, sem destino e sem grandes pretensões.
Passei primeiramente pelo meu exemplo máximo de ruína, e o que me encanta tanto aos olhos, o prédio da antiga metalúrgica Alfredo Villanova, os vidros quebrados, as paredes manchadas pelo tempo e rasuradas pelo vandalismo, o portão enferrujado, as plantas, as placas, o cinza, os tijolos, o cemitério logo ao lado, a praça, o velhinho que passa em frente e junto comigo para para observar (eu sempre disse que está coisa de acerto ortográfico geraria confusão: “pára para observar”) aquilo que tantos passam sem notar.
O velhinho diz que lembra e também quer saber mais. A moça da banca de jornal logo à frente também se lembra, mas se confunde e no meio da confusão ela indaga “mas porque você quer saber disso?”. É preciso ter motivos, sempre ter motivos.
Ando pelas ruas quebradas que começam logo após o cemitério velho. Casas com cores fortes e pintura danificada. Casas de mesma arquitetura um quarteirão inteiro. Construções que preservam a essência da fazenda com um belo carro na garagem. Pássaros, folhas que caem das árvores sem cessar, rua praticamente sem transito... e sou atacada por uma infinidade de mosquitos (afinal, isso é realidade).
Chego ao ponto final do passeio, o nosso (indaiatubano) patrimônio mais famoso: Casarão Cultural Pau Preto. Lá uma exposição de obras de artesanato do Recife, obras que deram origem ao regionalismo. Sento-me sozinha num dos bancos enfeitados com pano de chita e assisto ao documentário que passa na TV (me parece que o segurança fica olhando ao longe imaginando se eu não tenho nada mais interessante pra fazer, mais interessante que aquilo, eu não tinha mesmo). Passeio pelo antigo casarão, olho as obras, ajoelho-me no chão para ver a parte subterrânea que é acessível através de um vidro (agora tem algo semelhante a uma instalação, muito interessante pra quem ainda não conferiu), fico com vontade de abrir as portas que agora contém a administração, penso que ainda preferia ver o casarão mais acessível – quando não era portador da biblioteca e do teatro, porém não se pode ter tudo e também não podemos negar que a nova gestão do casarão o evidencia muito mais (méritos do Marcelo) – procuro não me ater ao saudosismo que aquele casarão me provoca.
Há pessoas acessando seus notebooks no jardim do Casarão (não é irônico e fantástico?), vejo um pai brincando com um filho enquanto o recorda que amanhã eles passearão no Parque Ecológico de bicicleta, observo um grupo de pessoas praticando Tai Chi Chuan no bosque, e o segurança simpático me dá todas as informações sobre a porta fechada sem me perguntar os motivos (este sabe que “faço teatro” então deve ter deduzido a resposta: curiosidade).
Começo a pensar que talvez eu não seja a única a perceber que a cultura esta perto e pode/deve ser sugada (afinal ainda existiam pelo menos 10 pessoas aproveitando aquele espaço). Indaiatuba, definitivamente, não é sinônimo de cultura, mas pode vir a ser. E eu que lamentava o fato de no dia anterior ter assistido a um belíssimo espetáculo teatral em que apenas dois atores da cidade estavam presentes na platéia (incluindo eu) começo a pensar que nem tudo é o que parece. Ainda bem!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sobre o Jazz Brasil Festival de Dança (ou Jazz Brasil Festival of dance (?))

Gosto de ficar observando platéia de teatro – pra dizer a verdade, às vezes acho muito mais interessante a platéia do que o que se passa no palco – gosto de observá-la antes, durante e depois: observo a fila, a atenção, o recebimento do programa, os olhares... preciso saber quem são estas pessoas que saem de suas casas em meio à chuva para assistir à espetáculos artísticos.
Na última sexta-feira também me aventurei, em meio à chuva, a ir ao novo teatro de Indaiatuba, o Deco 20 (muito bem estruturado por sinal, com uma iluminação de dar inveja ao próprio elefante branco –conhecido como CIAEI - da Secretaria da Educação), para assistir ao festival de dança da Academia Jazz Brasil. Chegando lá, não para minha surpresa, pude comprovar o que sempre vemos em eventos culturais (eu disse CULTURAIS) da nossa cidade: parentes e amigos dos envolvidos no projeto formavam toda a platéia. Até aí tudo bem, esta questão é sempre debatida e só se resolverá através de um programa que alie as secretarias da educação e cultura para desenvolverem juntas um programa de ação cultural (enquanto isso enchemos nosso teatro oficial apenas quando aparece alguém famoso da Globo ou CQC), mas isso é assunto pra outro dia .
Voltando às minhas impressões, não pude deixar de observar as crianças que logo se apresentariam no palco em meio à fila junto com os pais, ou arrumando sua sapatilha com a recepcionista, ou ainda comprando salgadinhos no hall de entrada do teatro... é claro que o evento prevê que varias escolas ou entidades se apresentem e não havia como a organização controlar todos os movimentos dos participantes, contudo, ainda acho, e não mudarei de opinião tão fácil, que o importante daquele evento eram realmente as crianças e que pra elas este dia é de extrema importância, sendo assim acredito que momentos antes de entrar no palco elas deveriam estar relaxando, concentrando ou até mesmo brincando tranquilas, mas junto com seu grupo e não exibindo seu figurino antes da entrada de cena, enfatizo ainda – pra não deixar dúvidas- que a platéia formada por pais não se incomodaram em nenhum momento com nada disso, mas sempre quando vejo o ser na arte e não a arte no ser me incomodo e me inquieto, e isso não é erro das crianças, e sim do ensino de arte dado a elas.
A idéia de um festival COMPETITIVO de dança (ou de qualquer arte) por si só já me inquieta. Como julgar qual CRIANÇA fez o melhor movimento? Qual das CRIANÇAS estava mais concentrada? Que escola merece ganhar mil reais? Porque a outra não? Como três pessoas conseguem avaliar todo o processo que deu aquele resultado? Porque o processo é o que me interessa se tratando de educação, o processo que geralmente é imbuído de treinamento, ensaio, suor, abdicar de compromissos, dor, atenção – e não os cinco minutos finais. Os cinco minutos finais podem ser de extrema angustia e frustração para uma criança quando ela entende que aquilo é o que importa e não toda a sua dedicação.
Realmente não entendo estas coisas, afinal de contas não sabemos como foi realizado o processo de todas as equipes, quais as dificuldades de cada aluno, o quanto aquelas crianças realmente tinham contribuído enquanto artistas criativas ou então tinham apenas copiado uma professora que “passou a coreografia”. Pra mim arte na educação é outra coisa. Vou sempre me angustiar enquanto eu continuar assistindo festivais de arte que mais parecem jogo de futebol com torcida organizada, pois as crianças, antes ou depois de se apresentarem, iam correndo para a platéia para poderem torcer por suas escolas. Torcer? A arte não deveria ser o meio e o fim?
O grande ganho do festival era quando eu conseguia desfocar a atenção dos pequenos equívocos visíveis na educação da arte e conseguia me encantar com as superações de cada criança, que tinham os olhos brilhando, nos rápidos momentos em que eu via a criança sendo criança, sendo criança artista, foram elas que salvaram toda a organização e desenvolvimento do evento. Parabéns! Aproveito ainda para parabenizar as iniciativas de projetos artísticos nas escolas da cidade, não conheço todos a fundo, mas apesar de haver ressalvas e questionamentos sobre como se dá o processo educacional junto à arte, é sempre bom saber que algo já está sendo pensado sobre isso, já é um grande passo!
Quanto ao festival em si, parabenizo a iniciativa e o interesse pela arte da Cia Jazz Brasil (além das apresentações muito bem executadas de seus alunos), contudo acredito que precisamos sempre olhar às coisas, boas ou ruins (e coloco aqui a equipe do Jazz Brasil em meio às boas), com visão critica construtiva e neste caso acredito realmente que seja necessário observar, na composição dos próximos festivais, qual a intenção cultural, artística e educacional do Festival. Afinal, há uma linha muito tênue entre o prazer da fruição de uma obra de arte e a simples vaidade de estar num palco. Acredito que medidas pequenas já fariam uma enorme diferença na concepção do Festival, entre elas sugiro o acompanhamento dos jurados durante os dias de ensaio para avaliar o processo como um todo, e substituiria a premiação em dinheiro por ajuda de custo (assim todos os grupos seriam privilegiados) eliminando assim o caráter competitivo do evento, afinal o fim de um Festival Artístico, de nível educacional, deveria ser somente a arte.

Por que eu tenho que aprender isso se eu não vou usar para nada?


Quantas vezes já escutamos crianças reclamando sobre a necessidade de se aprender alguma coisa na escola? Automaticamente, como adultos responsáveis que somos - como pessoas que sabem o que é prioridade, como classe média que sabe da importância de entrar em uma boa universidade- damos milhões de justificativas para que o questionamento da criança seja reprimido, e como aprendemos durante a vida inteira aquelas respostas somos convincentes, pelo menos ao ponto de incentivar a criança a estudar para a prova de desenho geométrico. Contudo a resposta que elas deveriam escutar é “e não é que você tem razão mesmo, isso que você estuda provavelmente nunca será útil pra nada”.Estes dias escutei uma coordenadora pedagógica dizendo, meio que entre os dentes, que “a escola hoje em dia não prepara o aluno pra nada”, quase tímida, com medo de ser escutada, ela falava uma verdade gigantesca, questionava o interesse dos alunos mais velhos por eles estarem aprendendo coisas que não os são úteis, que apenas os farão serem aprovados em alguma faculdade pública. Digo dos “alunos mais velhos” porque na maioria das vezes, quando criança, os alunos aprendem coisas que são do teu dia-a-dia, é um conhecimento palpável, sendo assim é interessante aprender. Por que então a partir de uma determinada idade o conhecimento fica chato? Cheio de formulas? Formulas que só se aprendem se os alunos forem espertos o suficiente para comparar com alguma musiquinha que usem as próprias letras da formula, já que é impossível entender como a fórmula surgiu, contudo, como ela surgiu pouco importa, ainda bem que alguém já fez o trabalho difícil, agora é só copiar...Daí então o que realmente interessa é a aprovação em alguma faculdade boa, porque todos os adolescentes devem fazer faculdade, afinal hoje em dia é inaceitável alguém não se tornar um acadêmico, é o mínimo. Então temos pais desesperados na fila dos vestibulares junto com seus filhos ansiosos pela resposta. Os pais cobram da escola que prepare seu filho para ser um ótimo “profissional em fazer vestibulares”. E vejam que surpresa: o vestibular não pede que seja ensinado arte, não cobra isso na prova. Então porque mesmo estamos ensinando arte na escola? Pra que a arte serve?A arte tanto não tem serventia na escola que a partir do ensino médio ela passa a ser praticamente esquecida. Quando não, ela vira um alicerce ao ensino das “matérias mais importantes” como matemática, geografia, português... Afinal ela não tem serventia. É, realmente a arte não tem serventia neste ensino para máquinas que a educação esta fundamentada. Nenhum aluno precisa aprender a pensar sozinho. Se ele for capaz de reproduzir o que já foi feito, decorar fórmulas e souber escrever algo que agrade a banca na redação: PRONTO eis um aluno de sucesso!Mas a escola não era mesmo para preparar o aluno pra vida? Não era mesmo para ele aprender a tomar decisões? Não era pra aprender a conviver em grupo? Pra lidar com suas dificuldades? Pra se descobrir?Então nós, alunos de arte, nos vemos ensinando algo sobre a vida aos pequenos, sempre por baixo do pano, torcendo para que a escola não descubra e nos condene. Pois os alunos apenas precisam saber que Tarsila pintou o Abaporu e não participou da Semana de Arte Moderna, era apenas isso que tínhamos que ensinar. Como assim queremos ensinar mais? Por que queremos mesmo ouví-los? Por que estes alunos meio bicho-grilo que se formaram em teatro acham que podem mesmo sair do tradicional? Afinal arte não é teatro, arte é arte ué, aquilo que aprendemos na escola sobre não ultrapassar a linha na hora de pintar. "Teatro? Pode fazer alguma pecinha pro dia das mães?".Não, uma revolução não resolve , nem tão pouco brigar com a direção do colégio disposto a ser mandado embora, e muito menos tentar alertar aos pais. A arte é um pouco mais esperta que isso, os artistas devem ser um pouco mais espertos que isso. A grande revolução mesmo começa na sala de aula, no contato com os alunos, que sabem muito bem diferenciar algo bom de algo ruim, eles sim sabem o que é realmente importante ao ensino deles. Eles são a resposta e nosso trabalho é livre ao ponto de atender as necessidades daqueles alunos. E o teatro, que já nos deu tantas respostas... que desde os gregos, egípcios e o escambau estava imbuído de falar do humano, de deixar o humano aparecer. O teatro que quer jogar, brincar, cantar e dançar... que quer se expressar com as suas palavras e não com a reprodução de algo. O teatro que busca suas próprias respostas ao invés de copiar as fórmulas citadas. O teatro que nem sempre fala o que todos querem escutar, que vai pelo caminho mais difícil e às vezes descobre novos horizontes. O teatro.... o teatro talvez realmente não seja útil a esta escola que temos, mas sim àquela escola que deveríamos ter.