Foram duas horas de passeio pela parte velha da cidade. Sem guia turístico, sem destino e sem grandes pretensões.
Passei primeiramente pelo meu exemplo máximo de ruína, e o que me encanta tanto aos olhos, o prédio da antiga metalúrgica Alfredo Villanova, os vidros quebrados, as paredes manchadas pelo tempo e rasuradas pelo vandalismo, o portão enferrujado, as plantas, as placas, o cinza, os tijolos, o cemitério logo ao lado, a praça, o velhinho que passa em frente e junto comigo para para observar (eu sempre disse que está coisa de acerto ortográfico geraria confusão: “pára para observar”) aquilo que tantos passam sem notar.
O velhinho diz que lembra e também quer saber mais. A moça da banca de jornal logo à frente também se lembra, mas se confunde e no meio da confusão ela indaga “mas porque você quer saber disso?”. É preciso ter motivos, sempre ter motivos.
Ando pelas ruas quebradas que começam logo após o cemitério velho. Casas com cores fortes e pintura danificada. Casas de mesma arquitetura um quarteirão inteiro. Construções que preservam a essência da fazenda com um belo carro na garagem. Pássaros, folhas que caem das árvores sem cessar, rua praticamente sem transito... e sou atacada por uma infinidade de mosquitos (afinal, isso é realidade).
Chego ao ponto final do passeio, o nosso (indaiatubano) patrimônio mais famoso: Casarão Cultural Pau Preto. Lá uma exposição de obras de artesanato do Recife, obras que deram origem ao regionalismo. Sento-me sozinha num dos bancos enfeitados com pano de chita e assisto ao documentário que passa na TV (me parece que o segurança fica olhando ao longe imaginando se eu não tenho nada mais interessante pra fazer, mais interessante que aquilo, eu não tinha mesmo). Passeio pelo antigo casarão, olho as obras, ajoelho-me no chão para ver a parte subterrânea que é acessível através de um vidro (agora tem algo semelhante a uma instalação, muito interessante pra quem ainda não conferiu), fico com vontade de abrir as portas que agora contém a administração, penso que ainda preferia ver o casarão mais acessível – quando não era portador da biblioteca e do teatro, porém não se pode ter tudo e também não podemos negar que a nova gestão do casarão o evidencia muito mais (méritos do Marcelo) – procuro não me ater ao saudosismo que aquele casarão me provoca.
Há pessoas acessando seus notebooks no jardim do Casarão (não é irônico e fantástico?), vejo um pai brincando com um filho enquanto o recorda que amanhã eles passearão no Parque Ecológico de bicicleta, observo um grupo de pessoas praticando Tai Chi Chuan no bosque, e o segurança simpático me dá todas as informações sobre a porta fechada sem me perguntar os motivos (este sabe que “faço teatro” então deve ter deduzido a resposta: curiosidade).
Começo a pensar que talvez eu não seja a única a perceber que a cultura esta perto e pode/deve ser sugada (afinal ainda existiam pelo menos 10 pessoas aproveitando aquele espaço). Indaiatuba, definitivamente, não é sinônimo de cultura, mas pode vir a ser. E eu que lamentava o fato de no dia anterior ter assistido a um belíssimo espetáculo teatral em que apenas dois atores da cidade estavam presentes na platéia (incluindo eu) começo a pensar que nem tudo é o que parece. Ainda bem!


